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terça-feira, 15 de abril de 2014

a BOA ignorância

QUEM ME MANDOU A MIM QUERER PERCEBER.
Como quem num dia de Verão abre a porta de casa
E espreita para o calor dos campos com a cara toda,
Às vezes, de repente, bate-me a Natureza de chapa
Na cara dos meus sentidos,
E eu fico confuso, perturbado, querendo perceber
Não sei bem como nem o quê...
Mas quem me mandou a mim querer perceber?
Quem me disse que havia que perceber?
Quando o Verão me passa pela cara
A mão leve e quente da sua brisa,
Só tenho que sentir agrado porque é brisa
Ou que sentir desagrado porque é quente,
E de qualquer maneira que eu o sinta,
Assim, porque assim o sinto, é que é meu dever senti-lo...
Alberto Caeiro/Fernando PESSOA
(1888-1935)

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

SonetO

soneto

"Não pode Amor por mais que as falas mude
exprimir quanto pesa ou quanto mede.
Se acaso a comoção falar concede
é tão mesquinho o tom que o desilude.


 Busca no rosto a cor que mais o ajude,
magoado parecer aos olhos pede,
pois quando a fala a tudo o mais excede
näo pode ser Amor com tal virtude.

 
Também eu das palavras me arreceio,
também sofro do mal sem saber onde
busque a expressão maior do meu anseio.
 

E acaso perde, o Amor que a fala esconde,
em verdade, em beleza, em doce enleio?
Olha bem os meus olhos, e responde. 

António Gedeão"Não pode Amor por mais que as falas mude
exprimir quanto pesa ou quanto mede.
Se acaso a comoção falar concede...
é tão mesquinho o tom que o desilude.


Busca no rosto a cor que mais o ajude,
magoado parecer aos olhos pede,
pois quando a fala a tudo o mais excede
näo pode ser Amor com tal virtude.


Também eu das palavras me arreceio,
também sofro do mal sem saber onde
busque a expressão maior do meu anseio.


E acaso perde, o Amor que a fala esconde,
em verdade, em beleza, em doce enleio?
Olha bem os meus olhos, e responde.

António Gedeão



sexta-feira, 5 de julho de 2013

Na tarde..mas não ainda não tarde...

.
Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
 Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
 Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
 Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia
 
Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
 E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
 Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
 Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia
 
Meu amor, meu amor
 Minha estrela da tarde
 Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
 Meu amor, meu amor
 Eu não tenho a certeza
 Se tu és a alegria ou se és a tristeza
 Meu amor, meu amor
 Eu não tenho a certeza
 
Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
 Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
 Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
 E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram
 
Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
 Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
 Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
 E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram
 
Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
 É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
 Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
 Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto
 
Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!
 
José Carlos Ary dos Santos
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
"Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tarda...ndo-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!"

José Carlos Ary dos Santos


sábado, 9 de março de 2013

à de caMpos

"Chove muito, chove excessivamente...
Chove e de vez em quando faz um vento frio...
Estou triste, muito triste, como se o dia fosse eu.
Num dia no meu futuro em que chova assim também
... E eu, à janela de repente me lembre do dia de hoje,
Pensarei eu «ah nesse tempo eu era mais feliz»
Ou pensarei «ah, que tempo triste foi aquele»!
Ah, meu Deus, eu que pensarei deste dia nesse dia
E o que serei, de que forma; o que me será o passado que é hoje só presente?...
O ar está mais desagasalhado, mais frio, mais triste
E há uma grande dúvida de chumbo no meu coração..."
 

quarta-feira, 6 de março de 2013

ser-se

"Matar o sonho é matarmo-nos.
É mutilar a nossa alma.
O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso."
 

terça-feira, 5 de março de 2013

RR


segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

mundo Meu

"Eu que me aguente comigo
e com os comigos de mim."

Entre o luar e o arvoredo

Ser poeta é ser Pessoa...!!
Entre o luar e o arvoredo
 Fernando Pessoa

Entre o luar e o arvoredo, 
Entre o desejo e não pensar 
Meu ser secreto vai a medo 
Entre o arvoredo e o luar. 
Tudo é longínquo, tudo é enredo. 
Tudo é não ter nem encontrar. 
Entre o que a brisa traz e a hora, 
Entre o que foi e o que a alma faz, 
Meu ser oculto já não chora 
Entre a hora e o que a  brisa traz. 
Tudo não foi, tudo se ignora. 
Tudo em silêncio se desfaz.

Entre o luar e o arvoredo,
Entre o desejo e não pensar
... Meu ser secreto vai a medo
Entre o arvoredo e o luar.
Tudo é longínquo, tudo é enredo.
Tudo é não ter nem encontrar.
Entre o que a brisa traz e a hora,
Entre o que foi e o que a alma faz,
Meu ser oculto já não chora
Entre a hora e o que a brisa traz.
Tudo não foi, tudo se ignora.
Tudo em silêncio se desfaz.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Estou Lúcido como se Nunca Tivesse Pensado

"A noite desce, o calor soçobra um pouco,
Estou lúcido como se nunca tivesse pensado
E tivesse raiz, ligação direta com a terra
Não esta espécie de ligação de sentido secundário observado à noite.
À noite quando me separo das cousas,
E m'aproximo das estrelas ou constelações distantes —
Erro: porque o distante não é o próximo,
E aproximá-lo é enganar-me."

sábado, 27 de outubro de 2012

O meu olhaR

"O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar..."
 
Alberto Caeiro

terça-feira, 25 de setembro de 2012

caminhUS

"Não se acostume com o que não o faz feliz,
revolte-se quando julgar necessário.
Alague seu coração de esperanças,
mas não deixe que ele se afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-a.
Se perder um amor, não se perca!
Se o achar, segure-o!"

Fernando Pessoa

terça-feira, 7 de agosto de 2012

(Οδυσσέας Ελύτης )


Um poema do surrealista Odysséas Elýtis (Οδυσσέας Ελύτης )

ARQUÉTIPO ( APXETY∏ON )

O jacto de fogo após o embate dos seixos    devolveu-me
Ligonéri e uma praia

Onde provavelmente vi pela primeira vez uma mulher    e
compreendi o que significa encontrar o rododendro da
meia – noite    mais tarde percebi

Que era uma pomba

Que ela era o sono    um molho de gotas de uvas
no braço

Que foi desmontada num pequeno terraço pelo
vento feroz

De modo que por fim apenas restou um ombro e uma
parte à direita do cabelo

Sobre os escombros da primeira estrela da tarde.

( versão portuguesa de Luís Costa )

quinta-feira, 26 de julho de 2012

rOsA SAngUe

"Rosa Sangue
Amor Electro
Ninguém te vai parar, perguntar...
Fazer saber... Porquê?

Vais ter de te oferecer,
E entender, o que fará viver?

Vê, não basta ir, voar, seguir,
O cerco ao fim,
Aperta, trai, morde, engana a sorte, cai,
Não lembra de ti...

É só o amor desfeito,
Rosa sangue ao peito,
Lágrima que deito,
Sem voltar atrás!

Cresce e contamina
Tolhe a luz à vida,
Que afinal ensina, quebra,
Dobra a dor e entrega amor sincero.

Honra tanto esmero, cala o desespero,
É simples, tudo o que é da vida herdou sentido,
Tem-te se for tido, sabe ser vivido,
Fala-te ao ouvido e nasces tu...


Ninguém te vai parar, perguntar...
Fazer saber... Porquê?

Por isso vê, não basta ir, voar, seguir,
O cerco ao fim,
Aperta, trai, morde, engana a sorte, cai,
Não lembra de ti...

É só o amor desfeito,
Rosa sangue ao peito,
Lágrima que deito,
Sem voltar atrás!

Cresce e contamina
Tolhe a luz à vida,
Que afinal ensina, quebra,
Dobra a dor e entrega amor sincero.

Honra tanto esmero, cala o desespero,
É simples, tudo o que é da vida herdou sentido,
Tem-te se for tido, sabe ser vivido,
Fala-te ao ouvido e nasces tu..."

sábado, 14 de julho de 2012

Querem uma Luz Melhor que a do Sol!

"AH!
QUEREM uma luz melhor
que a do Sol!
Querem prados mais verdes do

que estes!
Querem flores mais belas do que estas

que vejo!
A mim este Sol, estes prados, estas flores contentam-me.
Mas, se acaso me descontentam,
O que quero é um sol mais sol
que o Sol,
O que quero é prados mais prados
que estes prados,
O que quero é flores mais estas flores
que estas flores -
Tudo mais ideal do que é do mesmo modo e da mesma maneira!"

sábado, 17 de dezembro de 2011

As coisas belas...

As coisas belas,
as que deixam cicatrizes na memória dos homens,
por que motivos serão belas?
E belas, para quê?

Põe-se o Sol porque o seu movimento é relativo.
Derrama cores porque os meus olhos vêem.
Mas por que será belo o pôr do sol?
E belo, para quê?

Se acaso as coisas não são coisas em si mesmas,
mas só são coisas quando percebidas,
por que direi das coisas que são belas?
E belas, para quê?

Se acaso as coisas forem coisas em si mesmas
sem precisarem de ser coisas percebidas,
para quem serão belas essas coisas?
E belas, para quê?

in Poesia Completa Antonio Gedeão, Edições João Sá da Costa, Lisboa

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Destino

Quero, terei;
Se não aqui;
Noutro lugar que ainda não sei.
Nada perdi;
Tudo serei.

Fernando Pessoa

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Posse

"Possuir é perder.
Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência."
Fernando Pessoa

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Estás Só

Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge.
Mas finge sem fingimento.
Nada 'speres que em ti já não exista,
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte se a sorte é dada.

Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa

Cada um Cumpre o Destino que lhe Cumpre

Cada um cumpre o destino que lhe cumpre,
E deseja o destino que deseja;
Nem cumpre o que deseja,
Nem deseja o que cumpre.
Como as pedras na orla dos canteiros
O Fado nos dispõe, e ali ficamos;
Que a Sorte nos fez postos
Onde houvemos de sê-lo.
Não tenhamos melhor conhecimento
Do que nos coube que de que nos coube.
Cumpramos o que somos.
Nada mais nos é dado.

Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa

O guardador de rebanhos - Alberto Caeiro

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.
Alberto Caeiro